AGRADECIMENTO AOS AMIGOS
POR MOTIVOS PROFISSIONAIS, A ÉPOCA ALTA DE TURISMO,O MEU TEMPO DIMINUIU, TEMPORARIAMENTE, PARA O QUE PEÇO A VOSSA COMPREENSÃO
um abraço da meg
Abril 14, 2008
O Grito

(o grito)
um relato de voz naquela voz,
tão retorcida voz, toda ela espanto.
o corpo que é voz tem um esgar
que deixa de ser corpo e é só voz.
se munch se dissesse, rediria
a voz candente, noite de gravura,
que é gravura e voz que firma a tela.
intensos tão meandros destes traços
que num itálico do grito a fala sente
o homem ser só grito, sem mais homem.
[Do livro Matéria Bruta]
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“Poesia concreta de ferro e aço”
Meu querido amigo Romério, tenho uma surpresa para você.
meg:obrigado pela publicacão do grito.teu convite est� aceito e te enviarei alguns poemas in�ditos.meu abra�o a todos os amigos quese fazem presentes aqui.rom�rio r�mulo
14/4/08 21:43
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ULTIMA HORA
mail recebido de nosso amigo Romério
meg:16:15 horas./ 15.03
acabo de chegar em casa e vejo suas mensagens.estou com um problema técnico:neste computador,sempre que vou fazer comentários no seu blog há uma distorção das letras.também não consigo ler todos os comentários:eles não abrem.terei,em outro computador,que fazer meu ou meus comentários.
tentarei amanhã ao longo do dia,na universidade.
te peço, se possível, informar isto aos nossos amigos. um grande abraço e obrigado.
romério
(Informo, no entanto, que já lhe enviei os comentários por mail)
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Abril 09, 2008
Adélia Prado ... um convite

Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
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"Dia"
As galinhas com susto abrem o bico
e param daquele jeito imóvel- ia dizer imoral
- as barbelas e as cristas envermelhadas,
só as artérias palpitando no pescoço.
Uma mulher espantada com sexo:
mas gostando muito
"O dia da ira"
As coisas tristíssimas,
o rolomag, o teste de Cooper,
a mole carne tremente entre as coxas,
vão desaparecer quando soar a trombeta.
Levantaremos como deuses,
com a beleza das coisas que nunca pecaram,
como árvores, como pedras,
exactos e dignos de amor.
Quando o anjo passar,
o furacão ardente do seu vôo
vai secar as feridas,
as secreções desviadas dos seus vasos
e as lágrimas.
As cidades restarão silenciosas, sem um veículo:
apenas os pés de seus habitantes
reunidos na praça, à espera de seus nomes.
Quando ele me disse
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio
.Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.
"Grande Desejo"
Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.
[Adélia Prado]
in Oráculo de Maio
Estuda com padres franciscanos e forma-se em filosofia.
Entra para o magistério em seguida mas abandona o projeto de dar aulas depois de se casar e ter cinco filhos.
No início dos anos 70, publica seus primeiros poemas em jornais de sua cidade e de Belo Horizonte.
Em 1971 divide com Lázaro Barreto a autoria do livro A Lapinha de Jesus
Em 1994, após anos de silêncio poético, sem nenhuma palavra, nenhum verso, ressurge Adélia Prado com o livro "O homem da mão seca." "O que se passou? Uma desolação, você quer, mas não pode.
Abril 04, 2008
No dia de Martin Luther King... Mandela
A grosso modo, eram 25 milhões de negros segregados e dominados militar, cultural, económica e tecnologicamente por 5 milhões de brancos! Por quê? Porque o racismo foi transformado numa teoria – mesmo sem qualquer fundamento científico – que tentava preservar a unidade de uma raça, supostamente superior, numa nação. Nelson Mandela é, precisamente, o maior exemplo de resistência contra essa miséria imposta aos negros sul-africanos, repudiada pelo mundo...

[Nelson Mandela, presidente da África do Sul, em visita à prisão da Ilha Robben, em 1995, onde passou parte de seus 27 anos de cadeia]

Prenderam-no
Humilharam-no
Encarceraram-lhe o corpo
Mas não conseguiram reter-lhe a alma
Não foram capazes de retirar-lhe o amor do coração
Foram impotentes para o desmotivar
Incapazes de lhe impor ódio e raiva
Pois ele foi sempre digno…
Manteve-se firme em seus nobres desígnios
Forte em seu caminho para a liberdade
Fixo em seus objectivos para atingir a igualdade
Mostrou grande exemplo de dignidade a todos
Tornou todos iguais perante a lei
Demoliu as diferenças de direitos
Foi líder e pai de uma nova nação arco-íris
Ensinou a tolerância e a liberdade a uns e outros
Perdoou a quem o trancou e privou do Mundo exterior…
Transformou a terra comum em esperança e justiça
Abriu as paredes e o arame farpado à democracia
Abraçou a todos sem distinção de cor ou poder
Cantou um novo hino da alegria de uma pátria renascida
Celebrou o início de uma nova era da humanidade
Deixou que a festa fosse dançada em espírito de paz nacional
Deu as mãos a todos os seus compatriotas e juntou-se-lhes
Criando uma nova nação movida pela unidade
Ele é um herói e pertence agora a todos nós…
Viva para sempre em nosso peito
o Madiba…da África…Livre
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[Manuel de Sousa]
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Abril 02, 2008
Será que o "HÁBITO" é mesmo isto?

Por hábito, vivemos com pessoas odiosas,
aprendemos a andar acorrentados,
a suportar injustiças, a sofrer,
a resignarmo-nos
à dor, à solidão, a tudo.
O hábito é o mais impiedoso dos venenos
porque entra em nós lentamente,
silenciosamente,
cresce a pouco e pouco,
alimentando-se da nossa inconsciência e,
quando descobrimos que a temos sobre nós,
já todas as nossas fibras de adaptaram a ela,
já todas as nossas atitudes foram por ela condicionadas,
não existe já remédio que possa curar-nos.
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PARA QUEM NÃO CONHECE... Oriana Fallaci (Florença, 29 de junho de 1929 — Florença, 15 de setembro de 2006) foi uma escritora e jornalista italiana.
Seu pai, Edoardo, foi um activo antifascista e já aos 10 anos, Oriana estava envolvida com a Resistência Italiana, participando do movimento clandestino "Giustizia e Libertà".
Durante a ocupação de Florença pelos nazistas, o pai foi capturado e torturado na "Villa Triste", onde funcionava uma secção da polícia politica alemã, também utilizada como cárcere e lugar de torturas até a Libertação de Florença, em Setembro de 1944. Pela sua participação na Resistência, Oriana foi condecorada, aos 14 anos, pelo Exército Italiano.
Oriana iniciou sua carreira de jornalista aos 16 anos.
Inicialmente trabalhou como colaboradora de jornais locais e posteriormente como enviada especial da revista semanal L'Europeo, fundada em 1945.
Em 1967 trabalhou como correspondente de guerra para L'Europeo no Vietnam. Retornará ao país por 12 vezes em 7 anos, para narrar a guerra, sem fazer concessões nem aos comunistas, nem tampouco aos americanos e aos sul-vietnamitas.
As experiências da guerra são reunidas no livro "Niente e così sia" publicado em 1969.
Ao longo de sua carreira, realizou importantes entrevistas com algumas das mais importantes personalidades do século XX, dentre as quais destacam-se Henry Kissinger, o Ayatollah Khomeini1, Lech Wałęsa, Willy Brandt, Zulfikar Ali Bhutto, Walter Cronkite, Muammar al-Gaddafi, Federico Fellini, Sammy Davis, Jr., Deng Xiaoping, Nguyen Cao Ky, Yasir Arafat, Indira Gandhi,Alexandros Panagoulis, Wernher von Braun, o Arcebispo Makarios, Golda Meir, Nguyen Van Thieu, Haile Selassie e Sean Connery
"A Força da Razão" é uma rigorosíssima análise daquilo a que Fallaci chama Incêndio de Tróia, isto é, de uma Europa que, na sua opinião, já não é Europa - mas sim "Eurábia", colónia do Islão. E fá-lo numa perspectiva histórica, filosófica, moral e política, enfrentando como sempre temas sobre os quais ninguém se atreve a falar e usando uma lógica irrefutável. A Força da Razão é um hino ao raciocínio e à verdade, onde o leitor encontrará uma extraordinária maturidade de pensamento, coragem e a nobreza de ânimo.
. .
"Livro clarificador e com sérias pretensões a originar mais uma fatwa à autora. Oriana Fallaci não deve estar preocupada, a sua convicção na força maior da opinião e na liberdade de expressão leva-a a continuar a pensar o mundo em que vivemos de uma forma despudorada e sem acenos diplomáticos à esquerda ou à direita, leia-se ao Ocidente bem comportado ou ao Oriente de vertente fundamentalista."
Tiago Salazar, Magazine Artes, Janeiro de 2005
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Eu sei que ficou um "bocadinho longo", mas espero que tenha valido a pena.
Março 29, 2008
Os Rios Atónitos


Por exemplo, se dizes Quanza ou dizes Congo
é como se houvesses pronunciado os próprios
rios
Ou seja, as águas
pesadas de lama, os peixes todos e os perigos
inumeráveis
O musgo das margens, o escuro
mistério em movimento.
Dizes Quanza ou dizes Congo e um rio corre
Lento
em tua boca.
Dizes Quanza
e o ar se preenche de perfumes perplexos.
E dizes Congo
e onde o dizes há grandes aves
e súbitos sons redondos e convexos.
E dizes Quanza, ou dizes Congo
e sempre que o dizes acorda em torno
um turbilhão de águas:
a vida, em seu inteiro e infinito assombro.
[José Eduardo Agualusa]
(Palavra de poeta - Antologia)
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José Eduardo Agualusa (13/12/1960) é natural de Huambo, planalto central Angola. Estudou Silvicultura e Agronomia em Lisboa, onde residiu desde os seus tempos de estudante até época recente.
Surgido na década de 90 como um dos nomes de topo da nova literatura africana (romancista, contista, poeta) em língua portuguesa, é um dos autores mais importantes surgidos em Angola nas últimas décadas, uma vez que já vamos do fim da segunda década...
Casado, pai de dois filhos, os seus livros são sucesso de vendas na língua de origem e estão traduzidos em diversos idiomas.
É jornalista e divide o seu tempo entre Luanda, Lisboa e viagens ao Brasil. O seu romance, "O vendedor de passados", foi agraciado com o Prêmio de Ficção Estrangeira concedido anualmente pelo jornal inglês "The Independent", em 2007.
Março 26, 2008
Não gostei de ler HOJE
WASHINGTON (Reuters)
[...]
[...]
O IFPRI estima que a África terá 6 milhões de crianças passando fome em 2020, um número 18% maior que o verificado em 1997.

Que todas as palavras
Dos meus poemas, fossem
Searas de trigo, arrozais,
campos de milho.
Ah quem me dera
Que todas as letras
Fossem leite, pão
Com os quais eu a fome
Vos pudesse matar
Ah quem me dera
Que a voz dos meus versos
Num grito da miséria
vos pudesse libertar.
Ah crianças de todo mundo
Que hipócrita tamanha eu sou
Nos versos d’um poema
Me defendo e pretendo
ter cumprido minha boa acção
não engano ninguém todos sabemos
de que vocês precisam
é de leite e de pão
para apaziguar vossos ventres
cheios de fome, vossas almas
doridas p’la miséria engordada.
deveria haver uma lei
em que proibissem a fome, a guerra
e neste dia...
aqui faço um apelo,
formar uma caridade,
para ajudar os pequenos
que não nos pedem brinquedos
mas sim algo que comer.
não nos pedem ténis da nike
ou jogos de computador,
apenas e tão somente,
qualquer coisa para esvaziar a fome
e acabar com tanta dor!!!!!
by Dinah Raphaellus (Portugal)

Carter disse que esperou cerca de vinte minutos para que o urubu fosse embora, mas isso não aconteceu. Então rapidamente tirou a foto e fez o urubu fugir dali, açoitando-o. Em seguida, saiu dali o mais rápido possível.
O fotógrafo criticou duramente sua postura por apenas fotografar, mas não ajudar, a pequena garota: “Um homem ajustando suas lentes para tirar o melhor enquadramento de sofrimento dela talvez também seja um predador, outro urubu na cena”, teria dito.
Um ano depois o fotógrafo, em profunda depressão, suicidou-se.
"Eu estou depressivo… sem telefone… dinheiro para o aluguel… dinheiro para o sustento de criança… dinheiro para dívidas… dinheiro!!!… Eu estou sendo perseguido pela viva memória de matanças, cadáveres, cólera e dor… pela criança faminta ou ferida… peloss homens loucos com o dedo no gatilho, muitas vezes policial, assassinos…"
Meus amigos, não sei se serão capazes de comentar este post
Março 23, 2008
Dias de Saudade

Eu queria escrever-te uma carta
deste mal indefinido que me persegue
que a não lesses sem suspirar
Angola
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Março 19, 2008
Manuel Fonseca
CesarinyDOMINGO
Quando chega domingo,
faço tenção de todas as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.
Há quem vá para o pé das águas
deitar-se na areia e não pensar...
E há os que vão para o campo
cheios de grandes sentimentos bucólicos
porque leram, de véspera, no boletim do jornal:
«bom tempo para amanhã»
...Mas uma maioria sai para as ruas pedindo,
pois nesse dia
aqueles que passeiam com a mulher e os filhos
são mais generosos.
Um rapaz que era pintornão disse nada a ninguém
e escolheu o domingo para se matar.
Ainda hoje a família e os amigos
andam pensando porque seria.
Só não relacionam que se matou num domingo!
Mariazinha Santos
(aquela que um dia se quis entregar,
que era o que a família desejava,
para que o seu futuro ficasse resolvido),
Mariazinha Santosquando chega domingo,
vai com uma amiga para o cinema.
Deixa que lhe apalpem as coxas
e abafa os suspiros mordendo um lencinho
que sua mãe lhe bordou,
quando ela era ainda muito menina...
Para eu contar isto
é que conheço todas as horas que fazem um dia de domingo!
À hora negra das noites frias e longas
sei duma hora numa escadaonde uma velha põe sua neta
e vem sorrir aos homens que passam!
E a costureirinha mais honesta que eu namorei
vendeu a virgindade num domingo
— porque é o dia em que estão fechadas as casas de penhores!
Há mais amargura nisto
que em toda a História das Guerras.
Partindo deste princípio,
que os economistas desconhecem
ou fingem desconhecer,
eu podia destruir esta civilização capitalista,
que inventou o domingo.
E esta era uma das coisas mais belas
que um homem podia fazer na vida!
Então,
todas as raparigas amariam no tempo próprio
e tudo seria natural
sem mendigos nas ruas nem casas de penhores...
Penso isto, e vou a grandes passadas...
E um domingo parei numa praça
e pus-me a gritar o que sentia,
mas todos acharam estranhos os meus modos
e estranha a minha voz...
Mariazinha Santos foi para o cinema
e outras menearam as ancas— ao sol
como num ritual consagrado a um deus!
—até chegar o homem bem-amado entre todos
com uma nota de cem na mão estendida...
Venha a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu fique rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras;
venha a ânsia do peito para os braços!
E vou a grandes passadas
como um louco maior que a sua loucura...
O rapaz que era pintor
aconchegou-se sobre a linha férrea
para que a morte o desfigurasse
e o seu corpo anónimo fosse uma bandeira trágica
de revolta contra o mundo.
Mas como o rosto lhe estava intacto
vai a família ao necrotério e ficou aterrada!
Conheci-o numa noite de bebedeira
e acho tudo aquilo natural.
A costureirinha que eu namorei
deixava-se ir para as ruas escuras
sem nenhum receio.
Uma vez que chovia até entrámos numa escada.
Somente sequer um beijo trocámos...
E isto porque no momento próprio
olhava para mim com um propósito tão sereno
que eu, que dela só desejava o corpo bom feito,
me punha a observar o outro aspecto do seu rosto,
que era aquela serenidade
de pessoa que tem a vida cheia e inteira.
No entanto, ela nunca pôs obstáculo
que nesse instante as minhas mãos segurassem as suas.
Hoje encontramo-nos aí pelos cafés...
(ela está sempre com sujeitos decentes)
e quando nos fitamos nos olhos,
bem lá no fundo dos olhos,
eu que sou homem nascido
para fazer as coisas mais heróicas da vida
viro a cabeça para o lado e digo:
— rapaz, traz-me um café...
O meu amigo, que era pintor,
contou-me numa noite de bebedeira:
— Olha,quando chega domingo,
não há nada melhor que ir para o futebol...
E como os olhos se me enevoassem de água,
continuou com uma voz
que deve ser igual à que se ouve nos sonhos:
— .... no entanto, conheço um homem
que ia para a beira do rio
e passava um dia inteirinho de domingo
segurando uma cana donde caia um fio para a água...
... um dia pescou um peixe,e nunca mais lá voltou...
O pior é pensar:
que hei-de fazer hoje, que toda a gente anda alegre
como se fosse uma festa?...
—O rapaz que era pintor sabia uma ciência rara,
tão rara e certa e maravilhosa
que deslumbrado se matou.
Pago o café e saio a grandes passadas.
Hoje e depois e todos os dias que vierem,
amo a vida mais e mais
que aqueles que sabem que vão morrer amanhã!
Mariazinha Santos,
que vá para o cinema morder o lencinho
que sua mãe lhe bordou...
E os senhores serenos,
acompanhados da mulher e dos filhos,
que parem ao sol
e joguem um tostão na mão dos pedintes...
E a menina das horas longas e frias
continue pela mão de sua avó...
E tu, que só andas com cavalheiros decentes,
ó costureirinha honesta que eu namorei um dia,
fita-me bem no fundo dos olhos,
fita-me bem no fundo dos olhos!
Então,virá a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu ficarei rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
e virá a ânsia do peito para os braços!
Domingo que vem,
eu vou fazer as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida!
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Manuel da Fonseca nasceu no dia 15 de Outubro de 1911 em Santiago do Cacém. Fez os estudos secundários em Lisboa, tendo-se dedicado posteriormente ao jornalismo Colaborou em várias publicações, de que se destacam as revistas Afinidades, Altitude, Árvore, Vértice e os jornais O Diabo e Diário, juntando-se aos neo-realistas que publicaram no Novo Cancioneiro. Através da sua arte teve uma intervenção social e política muito importante, retratando o povo, a sua vida, as suas misérias e as suas riquezas, exaltando-o e, mesmo, mitificando-o. Estreou-se em livro em 1940, com a colectânea poética Rosa dos Ventos. Além de poesia, publicou crónicas e ficção.Poeta, romancista, contista e cronista, toda a sua obra é atravessada pelo Alentejo e o seu povo.
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Março 15, 2008
Por que me lembra Natália?
Mário de Andrade, de Lazar SegalOde ao burguês
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!
Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiburi!
Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
"- Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
- Um colar... - Conto e quinhentos!!!
Más nós morremos de fome!"
Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burguês!...
Mário de Andrade
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UMA ADIVINHA
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ninguém adivinhou...
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Residência de Romério Rômulo, em Ouro PretoMarço 14, 2008
UM PRESENTE PARA OS AMIGOS


Para falar do poeta, ninguém melhor que o grande Sebastião Nunes, que prefaciou o livro Matéria Bruta!
[...]
Estamos diante de um poeta novo e original, autor de uma poesia radiosa como as primeiras manhãs do mundo, como toda poética fundadora.

Romério Rômulo
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Nasceu em Felixlândia, MG.
Março 11, 2008
Os Vínculos Portugueses

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Ruy Cinatti poeta, é hoje considerado ímpar na literatura portuguesa deste século, pelo compromisso apenas assumido consigo próprio, pelo tipo de imaginação enleada no real, pelo génio aventureiro de português andarilho, homem de acção e místico, inventor de uma toada nova e de um ritmo aparentemente simples, geradores de uma obra admirável.
Meu irmão, meu irmão branco,
Se te sentires timorense,
Lenço enrolado nas mãos,
É penhor de uma aliança.
Tenho o meu coração preso
Não piso a sombra de um símbolo
No Tata-Mai-Lau aprendo
Timor deu a volta ao mundo.
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«Um Cancioneiro para Timor», da autoria de Ruy Cinatti é o testemunho da actividade de um autor nacional de relevo que conseguiu conciliar habilmente a poesia à antropologia, graças à sua sublime capacidade de sentir e amar o outro e a Terra
Foi como chefe do gabinete do governador que viveu em Timor, onde estreitou a sua relação com a natureza e o povo locais. Ao reler um cancioneiro e algumas cantigas locais, Cinatti encontrou inspiração para a publicação desta obra.
«Um Cancioneiro para Timor» constitui por isso, um complemento indispensável a qualquer estudo antropológico que acerca daquele povo se produza e uma visão poética singular enraízada na identificação com o real.
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Março 08, 2008
São as mulheres como tu...

SÃO AS MULHERES COMO TU
Que pela consciência, encontram
respostas para todas as perguntas
Que pela fraternidade, possuem não só
uma vida mas todas as vidas
Que pela dedicação, transformam o
cansaço numa esperança infinita
Que pelo pensamento, ajudam
a realizar o azul que há no dorso das manhãs
Que pela emancipação, fazem de nós
mulheres e homens com a estatura
da vida, capazes da beleza,
da igualdade, da justiça e do amor
São as mulheres como tu
Que podem transformar o mundo
[Joaquim Pessoa]
Março 05, 2008
POEMA A PROPÓSITO
Do cimo de edifícios altos,
Por dinheiro, desígnio divino,
Alguns, perversamente, deixam traços,
Vivem na impunidade da lei,
Não é preciso vasculhar na memória
ou folhear o jornal
.
Jorge Gomes de Miranda








