A Recalcitrante

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Julho 12, 2008




AGRADECIMENTO AOS AMIGOS


POR MOTIVOS PROFISSIONAIS, A ÉPOCA ALTA DE TURISMO,O MEU TEMPO DIMINUIU, TEMPORARIAMENTE, PARA O QUE PEÇO A VOSSA COMPREENSÃO
As minhas visitas serão mais espaçadas, mas tentarei fazê-las sempre que possível,
Prometo responder a todos os comentários que tiverem o carinho de deixar.
AQUI, EM CADA POST
um abraço da meg








Abril 14, 2008




O Grito


The Cry, by Edvard Munch, 1893


(o grito)


um relato de voz naquela voz,

tão retorcida voz, toda ela espanto.

o corpo que é voz tem um esgar

que deixa de ser corpo e é só voz.

se munch se dissesse, rediria

a voz candente, noite de gravura,

que é gravura e voz que firma a tela.

intensos tão meandros destes traços

que num itálico do grito a fala sente

o homem ser só grito, sem mais homem.
.
Romério Rômulo

[Do livro Matéria Bruta]


«««««<>»»»»»
.
.
.
TRIBUTO A UM AMIGO


“Poesia concreta de ferro e aço

Romério Rômulo nasceu em Felixlândia, Minas Gerais, e mora em Ouro Preto, onde é professor de Economia Política da UFOP.
Prefaciou a primeira edição assinada das poesias eróticas de Bernardo Guimarães, "O Elixir do Pajé" (Dubolso, 1988), mais de 100 anos depois da edição original.

Já publicou diversos livros, como “Só pedras no caminho pedras pedras só pedras nada mais” (Lemi, BH, 1979), “Anjo Tardio” (Edição do Autor, Ouro Preto, 1983), “Bené para Flauta e Murilo” (Edições Dubolso, Sabará, 1990) e a caixa "Tempo Quando" (contendo 4 livros em 2 volumes, Dubolso, 1996).
Seu último livro, “Matéria Bruta” (Altana, SP, foi lançado no Terças Poéticas do após a leitura ao vivo de poemas extraídos do livro que mais parece um exercício de arqueologia à origem.





CONVITE AO POETA ROMÉRIO RÔMULO
.
Meu querido amigo Romério, tenho uma surpresa para você.

Enquanto não tem sua página na Internet, lhe ofereço a
Recalcitrante para você publicar o que quiser,
quando quiser, como quiser.
Esta casa é sua.

E tenho a certeza que todos os meus e seus amigos
ficarão felizes de ver você aqui
nos honrando com sua presença.

meg
.
E a resposta veio, meus amigos.
.
romerio r�mulo disse...
meg:obrigado pela publicacão do grito.teu convite est� aceito e te enviarei alguns poemas in�ditos.meu abra�o a todos os amigos quese fazem presentes aqui.rom�rio r�mulo
14/4/08 21:43

**********

ULTIMA HORA

mail recebido de nosso amigo Romério

meg:16:15 horas./ 15.03

acabo de chegar em casa e vejo suas mensagens.estou com um problema técnico:neste computador,sempre que vou fazer comentários no seu blog há uma distorção das letras.também não consigo ler todos os comentários:eles não abrem.terei,em outro computador,que fazer meu ou meus comentários.

tentarei amanhã ao longo do dia,na universidade.

te peço, se possível, informar isto aos nossos amigos. um grande abraço e obrigado.

romério

(Informo, no entanto, que já lhe enviei os comentários por mail)

.

.









Abril 09, 2008




Adélia Prado ... um convite



"O transe poético é o experimento de uma realidade anterior a você.
Ela te observa e te ama. Isto é sagrado. É de Deus.
É seu próprio olhar pondo nas coisas uma claridade inefável.
Tentar dizê-la é o labor do poeta."

(Adélia Prado)




Há mulheres que dizem:



Meu marido, se quiser pescar, pesque,

mas que limpe os peixes.

Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,

ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,

de vez em quando os cotovelos se esbarram,

ele fala coisas como "este foi difícil"

"prateou no ar dando rabanadas"

e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.

Por fim, os peixes na travessa,vamos dormir.

Coisas prateadas espocam:

somos noivo e noiva.
.


"Dia"


As galinhas com susto abrem o bico

e param daquele jeito imóvel- ia dizer imoral

- as barbelas e as cristas envermelhadas,

só as artérias palpitando no pescoço.

Uma mulher espantada com sexo:

mas gostando muito


"O dia da ira"

As coisas tristíssimas,

o rolomag, o teste de Cooper,

a mole carne tremente entre as coxas,

vão desaparecer quando soar a trombeta.

Levantaremos como deuses,

com a beleza das coisas que nunca pecaram,

como árvores, como pedras,

exactos e dignos de amor.

Quando o anjo passar,

o furacão ardente do seu vôo

vai secar as feridas,

as secreções desviadas dos seus vasos

e as lágrimas.

As cidades restarão silenciosas, sem um veículo:

apenas os pés de seus habitantes

reunidos na praça, à espera de seus nomes.



"Neurolingüística"

Quando ele me disse

ô linda,

pareces uma rainha,

fui ao cúmice do ápice

mas segurei meu desmaio

.Aos sessenta anos de idade,

vinte de casta viuvez,

quero estar bem acordada,

caso ele fale outra vez.


"Grande Desejo"

Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,

sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.

Faço comida e como.

Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro

e atiro os restos.

Quando dói, grito ai,

quando é bom, fico bruta,

as sensibilidades sem governo.

Mas tenho meus prantos,

claridades atrás do meu estômago humilde

e fortíssima voz pra cânticos de festa.

Quando escrever o livro com o meu nome

e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,

a uma lápide, a um descampado,

para chorar, chorar e chorar,

requintada e esquisita como uma dama.



[Adélia Prado]

in Oráculo de Maio



«««««<>»»»»»

Escritora e poeta mineira (13/12/1936).

A sua obra recria com uma linguagem despojada e directa, frequentemente lírica, a vida e as preocupações dos personagens do interior de Minas
Adélia Luzia Prado de Freitas nasce em Divinópolis.
Aos 14 anos, já escreve seus primeiros versos.
Estuda com padres franciscanos e forma-se em filosofia.
Entra para o magistério em seguida mas abandona o projeto de dar aulas depois de se casar e ter cinco filhos.
No início dos anos 70, publica seus primeiros poemas em jornais de sua cidade e de Belo Horizonte.
Em 1971 divide com Lázaro Barreto a autoria do livro A Lapinha de Jesus

Em 1994, após anos de silêncio poético, sem nenhuma palavra, nenhum verso, ressurge Adélia Prado com o livro "O homem da mão seca."
Conta a autora que o livro foi iniciado em 1987, mas, depois de concluir o primeiro capítulo, foi acometida de uma crise de depressão, que a bloquearia literariamente por longo tempo.
Disse que vê "a aridez como uma experiência necessária" e que "essa temporada no deserto" lhe fez bem.
Nesse período, segundo afirmou, foi levada a procurar ajuda de um psiquiatra.
"O que se passou? Uma desolação, você quer, mas não pode.

Contudo, a poesia é maior que a poeta, e quando ela vem, se você não a recebe, este segundo inferno é maior que o primeiro, o da aridez."




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Abril 04, 2008




No dia de Martin Luther King... Mandela





O que era o Apartheid


Com a eleição de Nelson Mandela à presidência da África do Sul, o apartheid fica como uma triste lembrança de uma variante moderna do nazismo, no que ele tinha e tem de mais abominável.

Em língua holandesa e em sentido político ideológico, significa separação, ou anacrónica manutenção da supremacia de uma aristocracia branca, baseada numa rígida hierarquia de castas raciais, para as quais existe uma correlação directa entre a cor da pele e possibilidades de acesso aos direitos e ao poder social e político.

Ainda, como o define o mestre Aurélio, apartheid “é o sistema oficial de segregação racial praticada na África do Sul para proteger a minoria branca”.

As suas raízes fazem parte do desenvolvimento histórico da sociedade sul-africana, com a chegada (1692) e a expansão dos europeus, que passaram a discriminar e eliminar as populações originais.

A grosso modo, eram 25 milhões de negros segregados e dominados militar, cultural, económica e tecnologicamente por 5 milhões de brancos! Por quê? Porque o racismo foi transformado numa teoria – mesmo sem qualquer fundamento científico – que tentava preservar a unidade de uma raça, supostamente superior, numa nação. Nelson Mandela é, precisamente, o maior exemplo de resistência contra essa miséria imposta aos negros sul-africanos, repudiada pelo mundo...








"Nascemos para manifestar a glória do Universo que está dentro de nós.

Não está apenas em cada um de nós: está em todos nós.

E conforme deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente

damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo.

E conforme nos libertamos do nosso medo, nossa presença,

automaticamente, libera os outros."


[Nelson Mandela, presidente da África do Sul, em visita à prisão da Ilha Robben, em 1995, onde passou parte de seus 27 anos de cadeia]










Mandela Madiba





Prenderam-no

Humilharam-no

Encarceraram-lhe o corpo

Mas não conseguiram reter-lhe a alma

Não foram capazes de retirar-lhe o amor do coração

Foram impotentes para o desmotivar

Incapazes de lhe impor ódio e raiva

Pois ele foi sempre digno…

Manteve-se firme em seus nobres desígnios

Forte em seu caminho para a liberdade

Fixo em seus objectivos para atingir a igualdade

Mostrou grande exemplo de dignidade a todos

Tornou todos iguais perante a lei

Demoliu as diferenças de direitos

Foi líder e pai de uma nova nação arco-íris

Ensinou a tolerância e a liberdade a uns e outros

Perdoou a quem o trancou e privou do Mundo exterior…

Transformou a terra comum em esperança e justiça

Abriu as paredes e o arame farpado à democracia

Abraçou a todos sem distinção de cor ou poder

Cantou um novo hino da alegria de uma pátria renascida

Celebrou o início de uma nova era da humanidade

Deixou que a festa fosse dançada em espírito de paz nacional

Deu as mãos a todos os seus compatriotas e juntou-se-lhes

Criando uma nova nação movida pela unidade

Ele é um herói e pertence agora a todos nós…

Viva para sempre em nosso peito

o Madiba…da África…Livre
.
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[Manuel de Sousa]
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Abril 02, 2008




Será que o "HÁBITO" é mesmo isto?

PARA REFLECTIR E COMENTAR...
...UM PEDIDO DA
meg
.





O hábito é a mais infame das doenças porque nos faz aceitar
qualquer infelicidade, qualquer dor, qualquer morte.

Por hábito, vivemos com pessoas odiosas,
aprendemos a andar acorrentados,
a suportar injustiças, a sofrer,
a resignarmo-nos
à dor, à solidão, a tudo.

O hábito é o mais impiedoso dos venenos
porque entra em nós lentamente,
silenciosamente,
cresce a pouco e pouco,
alimentando-se da nossa inconsciência e,
quando descobrimos que a temos sobre nós,
já todas as nossas fibras de adaptaram a ela,
já todas as nossas atitudes foram por ela condicionadas,
não existe já remédio que possa curar-nos.
.
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Oriana Fallaci
[Um Homem, pág.120].
.



PARA QUEM NÃO CONHECE...
OS MAIS JOVENS...
NÃO DEIXEM DE IR LER
SOBRE ESTA MULHER
UMA GRANDE LUTADORA,
MUITO POLÉMICA,
MAS QUE VALE A PENA CONHECER.
meg



Oriana Fallaci (Florença, 29 de junho de 1929 — Florença, 15 de setembro de 2006) foi uma escritora e jornalista italiana.
De uma esquerdista nos anos sessenta, tornou-se na principal crítica do Islão na actualidade da Itália [1].
Seu pai, Edoardo, foi um activo antifascista e já aos 10 anos, Oriana estava envolvida com a Resistência Italiana, participando do movimento clandestino "Giustizia e Libertà".

Durante a ocupação de Florença pelos nazistas, o pai foi capturado e torturado na "Villa Triste", onde funcionava uma secção da polícia politica alemã, também utilizada como cárcere e lugar de torturas até a Libertação de Florença, em Setembro de 1944. Pela sua participação na Resistência, Oriana foi condecorada, aos 14 anos, pelo Exército Italiano.
Oriana iniciou sua carreira de jornalista aos 16 anos.

Inicialmente trabalhou como colaboradora de jornais locais e posteriormente como enviada especial da revista semanal L'Europeo, fundada em 1945.
Em 1967 trabalhou como correspondente de guerra para L'Europeo no Vietnam. Retornará ao país por 12 vezes em 7 anos, para narrar a guerra, sem fazer concessões nem aos comunistas, nem tampouco aos americanos e aos sul-vietnamitas.

As experiências da guerra são reunidas no livro "Niente e così sia" publicado em 1969.


Ao longo de sua carreira, realizou importantes entrevistas com algumas das mais importantes personalidades do século XX, dentre as quais destacam-se Henry Kissinger, o Ayatollah Khomeini1, Lech Wałęsa, Willy Brandt, Zulfikar Ali Bhutto, Walter Cronkite, Muammar al-Gaddafi, Federico Fellini, Sammy Davis, Jr., Deng Xiaoping, Nguyen Cao Ky, Yasir Arafat, Indira Gandhi,Alexandros Panagoulis, Wernher von Braun, o Arcebispo Makarios, Golda Meir, Nguyen Van Thieu, Haile Selassie e Sean Connery




"A Força da Razão" é uma rigorosíssima análise daquilo a que Fallaci chama Incêndio de Tróia, isto é, de uma Europa que, na sua opinião, já não é Europa - mas sim "Eurábia", colónia do Islão. E fá-lo numa perspectiva histórica, filosófica, moral e política, enfrentando como sempre temas sobre os quais ninguém se atreve a falar e usando uma lógica irrefutável. A Força da Razão é um hino ao raciocínio e à verdade, onde o leitor encontrará uma extraordinária maturidade de pensamento, coragem e a nobreza de ânimo.
. .

"Livro clarificador e com sérias pretensões a originar mais uma fatwa à autora. Oriana Fallaci não deve estar preocupada, a sua convicção na força maior da opinião e na liberdade de expressão leva-a a continuar a pensar o mundo em que vivemos de uma forma despudorada e sem acenos diplomáticos à esquerda ou à direita, leia-se ao Ocidente bem comportado ou ao Oriente de vertente fundamentalista."
Tiago Salazar, Magazine Artes, Janeiro de 2005
.
.
.

Eu sei que ficou um "bocadinho longo", mas espero que tenha valido a pena.









Março 29, 2008




Os Rios Atónitos

.

IMAGENS PARA O VOSSO FIM DE SEMANA
.







Há palavras a dormir sobre o seu largo

assombro

Por exemplo, se dizes Quanza ou dizes Congo

é como se houvesses pronunciado os próprios

rios

Ou seja, as águas

pesadas de lama, os peixes todos e os perigos

inumeráveis

O musgo das margens, o escuro

mistério em movimento.


Dizes Quanza ou dizes Congo e um rio corre

Lento

em tua boca.


Dizes Quanza

e o ar se preenche de perfumes perplexos.


E dizes Congo

e onde o dizes há grandes aves

e súbitos sons redondos e convexos.


E dizes Quanza, ou dizes Congo

e sempre que o dizes acorda em torno

um turbilhão de águas:

a vida, em seu inteiro e infinito assombro.

[José Eduardo Agualusa]

(Palavra de poeta - Antologia)

.


«««««<>»»»»»

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José Eduardo Agualusa (13/12/1960) é natural de Huambo, planalto central Angola. Estudou Silvicultura e Agronomia em Lisboa, onde residiu desde os seus tempos de estudante até época recente.

A sua família é portuguesa pelo lado paterno e brasileira pelo lado materno.

Surgido na década de 90 como um dos nomes de topo da nova literatura africana (romancista, contista, poeta) em língua portuguesa, é um dos autores mais importantes surgidos em Angola nas últimas décadas, uma vez que já vamos do fim da segunda década...

Casado, pai de dois filhos, os seus livros são sucesso de vendas na língua de origem e estão traduzidos em diversos idiomas.

É jornalista e divide o seu tempo entre Luanda, Lisboa e viagens ao Brasil. O seu romance, "O vendedor de passados", foi agraciado com o Prêmio de Ficção Estrangeira concedido anualmente pelo jornal inglês "The Independent", em 2007.










Março 26, 2008




Não gostei de ler HOJE

...
WASHINGTON (Reuters)

- Milhões de crianças, especialmente na África subsaariana, devem enfrentar a fome nos próximos 20 anos à medida que terras aráveis, água e outros recursos naturais se tornam cada vez mais escassos nos países subdesenvolvidos, advertiu um grupo internacional na terça-feira.
[...]
Em seu relatório "2020 Global Food Outlook" (panorama global da comida em 2020), o IFPRI prevê como estará a situação da alimentação dentro de 20 anos se os governos de todo o mundo não implementarem mudanças em suas políticas econômicas.
[...]
O IFPRI estima que a África terá 6 milhões de crianças passando fome em 2020, um número 18% maior que o verificado em 1997.
.
.
Relatório prevê 132 milhões de crianças famintas em 2020








Ah quem me dera,

Que todas as palavras

Dos meus poemas, fossem

Searas de trigo, arrozais,

campos de milho.

Ah quem me dera

Que todas as letras

Fossem leite, pão

Com os quais eu a fome

Vos pudesse matar

Ah quem me dera

Que a voz dos meus versos

Num grito da miséria

vos pudesse libertar.

Ah crianças de todo mundo

Que hipócrita tamanha eu sou

Nos versos d’um poema

Me defendo e pretendo

ter cumprido minha boa acção

não engano ninguém todos sabemos

de que vocês precisam

é de leite e de pão

para apaziguar vossos ventres

cheios de fome, vossas almas

doridas p’la miséria engordada.

deveria haver uma lei

em que proibissem a fome, a guerra

e neste dia...

aqui faço um apelo,

formar uma caridade,

para ajudar os pequenos

que não nos pedem brinquedos

mas sim algo que comer.

não nos pedem ténis da nike

ou jogos de computador,

apenas e tão somente,

qualquer coisa para esvaziar a fome

e acabar com tanta dor!!!!!


by Dinah Raphaellus (Portugal)


ESTA FOTOGRAFIA TEM UMA HISTÓRIA...TRISTE



Ganhadora do Prêmio Pulitzer em 1994 e publicada pelo The New York Times, a foto foi tirada em 1993 no Sudão, pelo fotógrafo sul-africano Kevin Carter(1960-1994).
Esta descreve uma criança faminta sem forças para continuar rastejando para um campo de alimentos da ONU, a um quilômetro dali.
O urubu espera a morte desta para então poder devorá-la.
Carter disse que esperou cerca de vinte minutos para que o urubu fosse embora, mas isso não aconteceu. Então rapidamente tirou a foto e fez o urubu fugir dali, açoitando-o. Em seguida, saiu dali o mais rápido possível.
O fotógrafo criticou duramente sua postura por apenas fotografar, mas não ajudar, a pequena garota: “Um homem ajustando suas lentes para tirar o melhor enquadramento de sofrimento dela talvez também seja um predador, outro urubu na cena”, teria dito.
Um ano depois o fotógrafo, em profunda depressão, suicidou-se.
O paradeiro da criança é desconhecido.

"Eu estou depressivo… sem telefone… dinheiro para o aluguel… dinheiro para o sustento de criança… dinheiro para dívidas… dinheiro!!!… Eu estou sendo perseguido pela viva memória de matanças, cadáveres, cólera e dor… pela criança faminta ou ferida… peloss homens loucos com o dedo no gatilho, muitas vezes policial, assassinos…"
[Trecho de sua carta de suicídio]

Meus amigos, não sei se serão capazes de comentar este post
Não vos levarei a mal , porque depois de ler e ver as imagens,
dum mundo que me dispenso de qualificar,
onde vivemos, fingindo que não sabemos o que nos rodeia,
qualquer pessoa fica "entalada"!
.
»»»»»«««««
.
.
Deixo-vos um poema duma poetisa portuguesa
desconhecida do grande público,
até me ser permitida a divulgação
da sua biografia
.
.
.
.











Março 23, 2008




Dias de Saudade



Carta dum contratado



Eu queria escrever-te uma carta
amor,
.uma carta que dissesse
deste anseio
de te ver
deste receio
de te perder
deste mais que bem querer que sinto
deste mal indefinido que me persegue
desta saudade a que vivo todo entregue...
Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta de confidências íntimas,
uma carta de lembranças de ti,
de ti
dos teus lábios vermelhos como tacula
dos teus cabelos negros como dilôa
dos teus olhos doces como macongue
dos teus seios duros como maboque
do teu andar de onça
e dos teus carinhos
que maiores não encontrei por aí...
Eu queria escrever-te uma carta
amor,
que recordasse nossos dias na capôpa
nossas noites perdidas no capim
que recordasse a sombra que nos caía dos jambos
o luar que se coava das palmeiras sem fim
que recordasse a loucura
da nossa paixão
e a amargura da nossa separação...
Eu queria escrever-te uma carta
amor, .
que a não lesses sem suspirar
que a escondesses de papai Bombo
que a sonegasses a mamãe Kiesa
que a relesses sem a frieza
do esquecimento
uma carta que em todo o Kilombo
outra a ela não tivesse merecimento...
Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que ta levasse o vento que passa
uma carta que os cajus e cafeeiros
que as hienas e palancas
que os jacarés e bagres
pudessem entender
para que se o vento a perdesse no caminho
os bichos e plantas
compadecidos de nosso pungente sofrer
de canto em canto
de lamento em lamento
de farfalhar em farfalhar
te levassem puras e quentes
as palavras ardentes
as palavras magoadas da minha carta
que eu queria escrever-te amor...
Eu queria escrever-te uma carta...
Mas, ah, meu amor, eu não sei compreender
por que é, por que é, por que é, meu bem
que tu não sabes ler
e eu - Oh! Desespero
não sei escrever também!

António Jacinto
(1924-1991)
Angola



NOTA

.

Um dia destes, com menos saudades, vos falarei do percurso de vida, política e literária deste autor angolano... vida complicada, mas hoje, perdoem-me... peço-vos que atentem só no poema, e como ele poderia ainda hoje ser escrito neste rectângulo, por mais pessoas do que se pensa...


«««««<>»»»»»











Março 19, 2008




Manuel Fonseca

Eu sei que este é um poema um bocadinho longo,
mas como o fim de semana também o é,
resolvi abusar um pouco da vossa paciência...
com a certeza de que vão dar por bem empregue o tempo.

UMA BOA PÁSCOA PARA TODOS
.

Cesariny


DOMINGO



Quando chega domingo,
faço tenção de todas as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.



Há quem vá para o pé das águas
deitar-se na areia e não pensar...


E há os que vão para o campo
cheios de grandes sentimentos bucólicos
porque leram, de véspera, no boletim do jornal:
«bom tempo para amanhã»


...Mas uma maioria sai para as ruas pedindo,
pois nesse dia
aqueles que passeiam com a mulher e os filhos
são mais generosos.
Um rapaz que era pintornão disse nada a ninguém
e escolheu o domingo para se matar.
Ainda hoje a família e os amigos
andam pensando porque seria.
Só não relacionam que se matou num domingo!


Mariazinha Santos
(aquela que um dia se quis entregar,
que era o que a família desejava,
para que o seu futuro ficasse resolvido),
Mariazinha Santosquando chega domingo,
vai com uma amiga para o cinema.
Deixa que lhe apalpem as coxas
e abafa os suspiros mordendo um lencinho
que sua mãe lhe bordou,
quando ela era ainda muito menina...


Para eu contar isto
é que conheço todas as horas que fazem um dia de domingo!
À hora negra das noites frias e longas
sei duma hora numa escadaonde uma velha põe sua neta
e vem sorrir aos homens que passam!
E a costureirinha mais honesta que eu namorei
vendeu a virgindade num domingo
— porque é o dia em que estão fechadas as casas de penhores!


Há mais amargura nisto
que em toda a História das Guerras.

Partindo deste princípio,
que os economistas desconhecem
ou fingem desconhecer,
eu podia destruir esta civilização capitalista,
que inventou o domingo.
E esta era uma das coisas mais belas
que um homem podia fazer na vida!


Então,
todas as raparigas amariam no tempo próprio
e tudo seria natural
sem mendigos nas ruas nem casas de penhores...


Penso isto, e vou a grandes passadas...
E um domingo parei numa praça
e pus-me a gritar o que sentia,
mas todos acharam estranhos os meus modos
e estranha a minha voz...


Mariazinha Santos foi para o cinema
e outras menearam as ancas— ao sol
como num ritual consagrado a um deus!
—até chegar o homem bem-amado entre todos
com uma nota de cem na mão estendida...


Venha a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu fique rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras;
venha a ânsia do peito para os braços!


E vou a grandes passadas
como um louco maior que a sua loucura...
O rapaz que era pintor
aconchegou-se sobre a linha férrea
para que a morte o desfigurasse
e o seu corpo anónimo fosse uma bandeira trágica
de revolta contra o mundo.


Mas como o rosto lhe estava intacto
vai a família ao necrotério e ficou aterrada!
Conheci-o numa noite de bebedeira
e acho tudo aquilo natural.


A costureirinha que eu namorei
deixava-se ir para as ruas escuras
sem nenhum receio.
Uma vez que chovia até entrámos numa escada.
Somente sequer um beijo trocámos...
E isto porque no momento próprio
olhava para mim com um propósito tão sereno
que eu, que dela só desejava o corpo bom feito,
me punha a observar o outro aspecto do seu rosto,
que era aquela serenidade
de pessoa que tem a vida cheia e inteira.


No entanto, ela nunca pôs obstáculo
que nesse instante as minhas mãos segurassem as suas.
Hoje encontramo-nos aí pelos cafés...
(ela está sempre com sujeitos decentes)
e quando nos fitamos nos olhos,
bem lá no fundo dos olhos,
eu que sou homem nascido
para fazer as coisas mais heróicas da vida
viro a cabeça para o lado e digo:
— rapaz, traz-me um café...


O meu amigo, que era pintor,
contou-me numa noite de bebedeira:
— Olha,quando chega domingo,
não há nada melhor que ir para o futebol...
E como os olhos se me enevoassem de água,
continuou com uma voz
que deve ser igual à que se ouve nos sonhos:
— .... no entanto, conheço um homem
que ia para a beira do rio
e passava um dia inteirinho de domingo
segurando uma cana donde caia um fio para a água...
... um dia pescou um peixe,e nunca mais lá voltou...
O pior é pensar:
que hei-de fazer hoje, que toda a gente anda alegre
como se fosse uma festa?...
—O rapaz que era pintor sabia uma ciência rara,
tão rara e certa e maravilhosa
que deslumbrado se matou.

Pago o café e saio a grandes passadas.
Hoje e depois e todos os dias que vierem,
amo a vida mais e mais
que aqueles que sabem que vão morrer amanhã!

Mariazinha Santos,
que vá para o cinema morder o lencinho
que sua mãe lhe bordou...
E os senhores serenos,
acompanhados da mulher e dos filhos,
que parem ao sol
e joguem um tostão na mão dos pedintes...
E a menina das horas longas e frias
continue pela mão de sua avó...
E tu, que só andas com cavalheiros decentes,
ó costureirinha honesta que eu namorei um dia,
fita-me bem no fundo dos olhos,
fita-me bem no fundo dos olhos!


Então,virá a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu ficarei rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
e virá a ânsia do peito para os braços!


Domingo que vem,
eu vou fazer as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida!
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Manuel Lopes da Fonseca
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Manuel da Fonseca nasceu no dia 15 de Outubro de 1911 em Santiago do Cacém. Fez os estudos secundários em Lisboa, tendo-se dedicado posteriormente ao jornalismo Colaborou em várias publicações, de que se destacam as revistas Afinidades, Altitude, Árvore, Vértice e os jornais O Diabo e Diário, juntando-se aos neo-realistas que publicaram no Novo Cancioneiro. Através da sua arte teve uma intervenção social e política muito importante, retratando o povo, a sua vida, as suas misérias e as suas riquezas, exaltando-o e, mesmo, mitificando-o. Estreou-se em livro em 1940, com a colectânea poética Rosa dos Ventos. Além de poesia, publicou crónicas e ficção.Poeta, romancista, contista e cronista, toda a sua obra é atravessada pelo Alentejo e o seu povo.

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Março 15, 2008




Por que me lembra Natália?

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POSTAGEM
200
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Mário de Andrade, de Lazar Segal




Ode ao burguês


Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!

Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!

O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!
Morte à gordura!

Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiburi!
Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
"- Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
- Um colar... - Conto e quinhentos!!!
Más nós morremos de fome!"
Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!

Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!

Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burguês!...




Mário de Andrade
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Pequena nota para acicatar a vossa curiosidade...
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Nascido em São Paulo no ano de 1893, Mário Raul de Morais Andrade começou a sua carreira artística dedicando-se à arte musical: formado em Música no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde seria mais tarde professor de História de Música.
Seu contato com a literatura começa também bem cedo, através de críticas de arte que Mário escrevia para jornais e revistas.
Em 1917 publica o seu primeiro livro, sob o pseudônimo de Mário Sobral: Há uma Gota de Sangue em Cada Poema.
Um dos principais participantes da Semana de Arte Moderna em 1922, respirou como ninguém os ares do novo movimento, vindo a publicar Paulicéia Desvairada (1922), o primeiro livro de poesias do Modernismo.
Leccionou por algum tempo na Universidade do Distrito Federal. Teve ainda uma participação importante nas principais revistas de caráter Modernista: "Klaxon", "Estética", "Terra Roxa e Outras Terras".
Veio a falecer no ano de 1945 em São Paulo, cidade que tanto amou e cantou, vítima de um ataque cardíaco.
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UMA ADIVINHA

MAIS UMA VEZ AGRADEÇO A TODOS OS QUE FIZERAM
DO DIA 14 UM DIA MEMORÁVEL
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UM AGRADECIMENTO ESPECIAL AO
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ROMÉRIO RÔMULO

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ninguém adivinhou...

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Residência de Romério Rômulo, em Ouro Preto

Depois da festa de ontem
hoje não me apetece escrever
...
deixo voar o meu pensamento
e sem pedir sequer autorização
ao dono deste paraíso natural,
é para lá que vou ler e reler
o poema que me deste
hoje
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Mas deixo uma adivinha:
Quem vive nesta casa do Séc.XIX?
E onde fica?
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Março 14, 2008




UM PRESENTE PARA OS AMIGOS




NO 1º ANIVERSÁRIO DE A RECALCITRANTE

AGRADEÇO A TODOS OS QUE CONTRIBUIRAM

PARA QUE EU CHEGASSE ATÉ AQUI




E PARA TORNAR ESTE DIA INESQUECÍVEL
APRESENTO-VOS O MEU GRANDE AMIGO E POETA
ROMÉRIO RÓMULO




Um amigo... que não tem blogue...

Um poeta... de QUEM GOSTO MUITO
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partilho-o convosco...


porque...


Romério acedeu a responder aos comentários

e às vossas perguntas


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Para falar do poeta, ninguém melhor que o grande Sebastião Nunes, que prefaciou o livro Matéria Bruta!

[...]
Pois bem. Eis que agora, depois de palmilhar longamente as estradas tortuosas da poesia, experimentando caminhos, atalhos, veredas e trilhas, em livros que indicavam o rumo mas não desvelavam segredos, Romério Rômulo desencanta de vez com Matéria Bruta, um livro que tem a grandeza e a maturidade dos poetas maiores.
Estamos diante de um poeta novo e original, autor de uma poesia radiosa como as primeiras manhãs do mundo, como toda poética fundadora.

Mas gostaria de alertar: leiam devagar, lenta e pausadamente.
Sintam os versos e os ritmos como eles se oferecerem.
Porque estamos, perdoem se insisto, conhecendo a técnica sofisticada de um poeta inaugural e, por isso, na presença de um poeta que se tornou grande pela busca pessoal, individual, solitária.
E que chegou lá, oscilando perigosamente no fio da navalha da linguagem, lá onde ela, a autêntica poesia, sopra quando quer, e só quando quer.[...] Sebastião Nunes




estas manhãs que chegam pelas costas

nos trazem um poder sobressalente.

o ciclo biológico se fecha

em queixas e cardumes.

as faces, duras pedras de pó carcomido,

trazem visgos.

quando olho a montanha

refaço-me.

sou o que trouxe o osso da cadela

nas mãos.

meu estomago é leve, o intestino, bruto.

posso roer manhãs como moradas

a cabra que alimenta meu coração

tem um salto de potro, um estado

de cão louco, uma avidez de flecha.

se penso a noite, a refaço pelas beiras.

os rios que me ruíram as sobras

não são vestais: são curtidos de visgos,

águas barrentas.

uns lençóis baratos recobrem meu silêncio.

um ananás do passado mostra a lucidez do meu corpo.

não vim ser anjo,

vim ser estardalhaço!

(para patrícia, o que sou)

Romério Rômulo

Matéria Bruta, 136 páginas

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Romério Rômulo: “Poesia concreta de ferro e aço”
Nasceu em Felixlândia, MG.

É professor de Economia Política da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e um dos fundadores do Instituto Cultural Carlos Scliar (Ouro Preto, MG).
Prefaciou a primeira edição assinada das poesias eróticas de Bernardo Guimarães, O Elixir do Pajé (Dubolso, 1988), mais de 100 anos depois da edição original.
Até então todas eram clandestinas
Publicou vários livros de poesia, entre eles Bené para Flauta e Murilo (1990) e a caixa Tempo Quando (4 livros em 2 volumes, 1996). O poema acima faz parte do livro Matéria Bruta.
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Espero que tenham gostado tanto como eu gostei
de vos dar a conhecer este POETA
Meg

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Março 11, 2008




Os Vínculos Portugueses




Não, não é a biografia do Rui Cinnati que vos deixo aqui, apenas um breve apontamento sobre a sua ligação a Timor... porque ele foi um homem de Timor. Quanto à sua biografia, é só um bocadinho de curiosidade e encontrarão tudo sobre este homem das letras..

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Ruy Cinatti poeta, é hoje considerado ímpar na literatura portuguesa deste século, pelo compromisso apenas assumido consigo próprio, pelo tipo de imaginação enleada no real, pelo génio aventureiro de português andarilho, homem de acção e místico, inventor de uma toada nova e de um ritmo aparentemente simples, geradores de uma obra admirável.




Moon light Dancing, de Mgabriela Carrascalão



OS VÍNCULOS PORTUGUESES

Meu irmão, meu irmão branco,
de cor, como eu também!
Aceita a minha aliança.
Bebe o meu sangue no teu.

Se te sentires timorense,
bebe o teu sangue no meu.

Lenço enrolado nas mãos,
apertadas, pele na palma.
Não o quero maculado.
Quero-lhe mais que à minha alma.

É penhor de uma aliança.
Quero-lhe mais que à minha alma.

Tenho o meu coração preso
a um símbolo desfraldado;
Um desenho atribuído,
pelas minhas mãos hasteado.

Não piso a sombra de um símbolo
pelas minhas mãos hasteado.

No Tata-Mai-Lau aprendo
alturas que ninguém viu
na terra de Português.
Hasteei-lhe uma bandeira.

Timor deu a volta ao mundo.
Hasteei nele a bandeira.
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Ruy Cinatti
in, Um Cancioneiro Para Timor

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«Um Cancioneiro para Timor», da autoria de Ruy Cinatti é o testemunho da actividade de um autor nacional de relevo que conseguiu conciliar habilmente a poesia à antropologia, graças à sua sublime capacidade de sentir e amar o outro e a Terra
Foi como chefe do gabinete do governador que viveu em Timor, onde estreitou a sua relação com a natureza e o povo locais. Ao reler um cancioneiro e algumas cantigas locais, Cinatti encontrou inspiração para a publicação desta obra.

«Um Cancioneiro para Timor» constitui por isso, um complemento indispensável a qualquer estudo antropológico que acerca daquele povo se produza e uma visão poética singular enraízada na identificação com o real.

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Março 08, 2008




São as mulheres como tu...


"O dia da Mulher é todos os dias,
mas este deve ser definitivamente especial."







SÃO AS MULHERES COMO TU

Que pela consciência, encontram

respostas para todas as perguntas

Que pela fraternidade, possuem não só

uma vida mas todas as vidas

Que pela dedicação, transformam o

cansaço numa esperança infinita

Que pelo pensamento, ajudam

a realizar o azul que há no dorso das manhãs

Que pela emancipação, fazem de nós

mulheres e homens com a estatura

da vida, capazes da beleza,

da igualdade, da justiça e do amor

São as mulheres como tu

Que podem transformar o mundo

[Joaquim Pessoa]





Há 145 anos, no dia 8 de Março de 1857, teve lugar aquela que terá sido, em todo o mundo, uma das primeiras acções organizadas por trabalhadores do sexo feminino.
Centenas de mulheres das fábricas de vestuário e têxteis de Nova Iorque iniciaram uma marcha de protesto contra os baixos salários, o período de 12 horas diárias e as más condições de trabalho.
A manifestação foi violentamente dispersada pela polícia.
O dia 8 de Março é, desde 1975, comemorado pelas Nações Unidas como Dia Internacional da Mulher.
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Março 05, 2008




POEMA A PROPÓSITO


O Pensador, de Rodin

SNIPERS



Do cimo de edifícios altos,
atrás dos sinos das igrejas,
de um pilar das pontes em ruínas,
do interior de carrinhas pretas,
em precários sítios emboscados,
um único tiro desferem: na cabeça
ou num outro órgão vital.
Por dinheiro, desígnio divino,
ódios étnicos, ou, os mais diabólicos,
por simples prazer, actuam.
Indiscriminadamente
ou com alvos seleccionados.
Alguns, perversamente, deixam traços,
passagens bíblicas, adivinhas
junto ao corpo das vítimas.
Um credo os move: serem uma ameaça
permanente, iguais a buracos negros.
Vivem na impunidade da lei,
até que, demasiado tarde,
em poças de sangue sucumbem.
Não é preciso vasculhar na memória
para encontrarmos notícias dos seus actos.
Por vezes, basta acender a televisão,
atender o telefone, abrir a caixa do correio
ou folhear o jornal
na secção de livros
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Jorge Gomes de Miranda
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Jorge Gomes Miranda...
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Nascido no Porto, em 1965, é dos poetas portugueses, aparecidos na segunda metade da década de noventa do século passado, que mais tem publicado.

Faz crítica literária na imprensa portuguesa, a sua obra é marcada por um discurso poético directo, povoado de memórias de lugares e de pessoas, que tem nas vivências subjectivas do real a sua matriz mais patente.

Jorge Gomes Miranda é igualmente um poeta prolífico. No seu caso, porém, a ruptura domina a continuidade. Uma ruptura marcada pela agressividade e o azedume, que não são estranhos a um certo ambiente crispado entre cliques poéticas.

Mas Jorge Gomes Miranda parece sempre exageradamente zangado com o mundo.

Essa amargura serve, nos bons momentos, para uma curiosa recuperação do poema político (no sentido lato).

Com efeito, Miranda é talvez o poeta novo que mais se interessa pelo estado do mundo, lá longe ou na soleira da porta, em registo de narratividade crítica.

E se é evidente que existe um clima de «guerra civil» na nova poesia portuguesa, fazer sucessivos poemas sobre isso, em sucessivos livros, é um exercício absolutamente desinteressante e escusado.

Sobretudo quando se leva tudo a um exagero doentio, com farpas sobre o «mercado de Famalicão» e os «gangs organizados e dispostos a tudo para chegarem ao nada»[...]
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[Pedro Mexia]
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